Brasil anos 30: a educação e a criação da USP
"Os Homens de ciência e, de um modo geral, os donos da tecnologia, presos cada qual a um campo restrito do respectivo domínio, subestimam o seu valor conjunto. Serão eles, no entanto, que levarão afinal a humanidade de volta ao "paraíso perdido".
Lúcio Costa
Com a Revolução de 30 instalou-se um novo regime político no Brasil e o país entrou numa fase de intensas transformações nos planos econômico, social, político e cultural. Ainda que o regime forte tenha dado a tônica na cena política e apesar das condições adversas por ele impostas, no setor cultural os dissidentes deram o tom e encabeçaram reformas expressivas nas instituições oficiais. Sob um clima de novidades e expectativas foram criados: o Ministério da Educação e Saúde, as primeiras universidades brasileiras, implantou-se a gratuidade e obrigatoriedade do ensino primário, foi introduzido o ensino profissionalizante para as camadas menos favorecidas da população. As aspirações de renovação vindas da década anterior, antes restritas à vanguarda, atingiram uma escala mais ampla e o que era exceção passou a norma. Os anos 30 se constituíram num importante referencial no quadro da cultura no país; eles são um "eixo em torno do qual girou de certo modo a cultura brasileira, catalisando ,Candido, 1980). O ensino: eis uma das preocupações das vanguardas que ganhou grande repercussão em meio ao clima de revolução cultural vigente. Entretanto é preciso ressaltar que os princípios renovadores que nortearam as propostas de reforma correspondem a iniciativas já apresentadas na década de vinte, caracterizada por Fernando de Azevedo como o período do "movimento pela renovação educacional". As Conferências Nacionais de Educação, realizadas pela Associação Brasileira de Educação (1927, 1928, 1929); o inquérito "O Problema Universitário Brasileiro" (1928); o Inquérito do Rotary Clube de São Paulo (1929); o Inquérito sobre a Instrução Pública em São Paulo (1926) integraram os esforços de ruptura e renovação deste decênio. Por um lado contemplavam a necessidade de difundir a instrução elementar, e, por outro, pressupunham a redefinição e o aumento de carreiras de nível superior. Ainda neste contexto cabe destacar uma reforma local ocorrida em São Paulo, promovida por Sampaio Dória, em 1920, visando combater o analfabetismo e tornando obrigatório o ensino primário. Dentre as iniciativas importantes para a compreensão da educação vigente, bem como para a criação da Universidade de São Paulo, vale destacar o Inquérito sobre a Instrução Pública em São Paulo, realizado sob a orientação de Fernando de Azevedo, a pedido de Júlio de Mesquita Filho, para o jornal O Estado de S. Paulo.
O inquérito foi publicado durante quatro meses e respondido por professores do ensino normal e secundário das escolas superiores de Medicina, Direito, Engenharia. Dentre as várias colocações, o Inquérito ressaltou o papel social da Universidade, como "'organismos vivos', adaptados às sociedades e destinados a acompanhar e dirigir-lhes a evolução, em todos os aspectos de sua vida múltipla e variada" (Cardoso, 1982). Em São Paulo houve também um outro fator decisivo para a consecução da idéia de universidade: o insucesso paulista na Revolução Constitucionalista de 1932 o Nove de Julho. A derrota contra o regime vigente tornou ainda mais forte a necessidade de formar novas elites bandeirantes, de restaurar os princípios liberais e democráticos, enfim da "reciclagem das elites e de seu potencial de auto-realização" (Fernandes, 1984). A criação da Universidade não é uma resposta apenas aos ideais revolucionários, mas situa-se nesse contexto, como um instrumento da reconstrução educacional da nacionalidade, revestida de expressivo significado político, considerada como: "[.] a expressão cultural dos "verdadeiros princípios" que teriam sido escamoteados pela Revolução de 30 e recuperados pela Revolução de 32. É a expressão "da luta, que pela reconstitucionalização do País, travou o povo paulista com as forças da ditadura" (Cardoso, 1982). Em discurso de paraninfo para a primeira turma da recém-criada Universidade de São Paulo, Júlio de Mesquita, um de seus fundadores, referiu-se a esta vocação regeneradora da instituição:
"Vencidos pelas armas, sabíamos perfeitamente que só pela ciência e pela perseverança no esforço voltaríamos a exercer a hegemonia que durante longas décadas desfrutáramos no seio da federação. Paulistas até a medula, herdáramos da nossa ascendência bandeirante o gosto pelos planos arrojados e a paciência necessária à execução dos grandes empreendimentos. Ora, que maior monumento poderíamos erguer aos que haviam consentido no sacrifício
supremo para preservar contra o vandalismo que acabava de aviltar a obra de nossos maiores, das Bandeiras à Independência e da Regência à República, do que a Universidade?" (Mesquita Filho, 1969).Nessa conjuntura de recuperação das forças políticas paulistas no plano nacional foram patrocinados vários empreendimentos culturais significativos, entre os quais a criação da Universidade de São Paulo. Comentando a dinâmica das relações entre a derrota paulista e a vida cultural no período, Miceli observou que: "[.] os dirigentes da oligarquia paulista atribuem as derrotas sofridas em 1930 e 1932 à carência de quadros especializados para o trabalho político e cultural e, escorados nesse diagnóstico, passam a condicionar suas pretensões de mando no plano federal à criação de novos instrumentos de luta: a Escola de Sociologia e Política, a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, no contexto da nova Universidade de São Paulo, o Departamento Municipal de Cultura, são iniciativas que se inscrevem nesse projeto" (Miceli, 1979). Há que se destacar a singularidade da Universidade de São Paulo em relação aos outros empreendimentos, especialmente a dimensão de um núcleo articulador, que definiu o perfil da instituição: a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras. As mudanças na educação alentadas por figuras como Anísio Spínola Teixeira, Fernando de Azevedo, Manuel Bergstrom Lourenço Filho continham uma idéia orgânica de universidade, mas a proposta do núcleo articulador via Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras é a fundamental contribuição do projeto USP, que o diferenciava de qualquer outra instituição existente no país. Não se trata da mera agregação de escolas profissionais, mas um organismo coeso em torno de uma Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras.
Uma das conclusões do Inquérito sobre Instrução Pública era que o ensino superior no Brasil precisava se desprender dos limites estreitos da preparação profissional. Ainda que as escolas profissionais existentes tivessem ocupado papel de grande expressão, concentrando funções técnicas, políticas e culturais, tendo sido responsáveis por inegáveis contribuições, faltava a universalidade e a profundidade, que levariam à certeza do progresso e à cultura livre e desinteressada que caracterizou a Faculdade de Filosofia, orientando-a por um pensamento radicalmente crítico. Em agosto de 1933, Armando de Salles Oliveira um dos homens do Nove de Julho assumiu a interventoria em São Paulo. Num processo de composição da classe dirigente com Getúlio Vargas, articulou a reunificação das forças políticas oligárquicas, estabelecendo-se então as condições para viabilizar o projeto político e ideológico de criação da Universidade.
Segundo o testemunho de Fernando de Azevedo: "[.] com Armando de Salles no poder e Júlio de Mesquita na direção de O Estado de S. Paulo, pareceu-nos ter chegado, afinal, a oportunidade de criar a Universidade de São Paulo e a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, que seria integrada no sistema. Júlio de Mesquita e eu lutávamos por isso desde 1923: foi entre esse ano e o de 1926 que escrevi em O Estado de S. Paulo artigos e estudos a respeito e promovi nesse jornal, em 1926, um largo inquérito, que durou meses, sobre a instrução pública em São Paulo e em que novamente levantava e discutia o problema do ensino superior e universitário em nosso Estado. [.] Pois realmente na encruzilhada encontrava-se, na época, a educação em São Paulo, e o caminho em que nos lançamos foi o de reformas radicais, da base à cúpula, com a renovação do ensino superior e a criação de uma Universidade, com sua Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras" (Azevedo, 1971). Uma comissão composta por Agesilau Bittencourt (Instituto Biológico), Almeida Júnior (Instituto de Educação), André Dreyfus (Faculdade de Medicina), Júlio de Mesquita Filho (O Estado de S. Paulo), Raul Briquet (Faculdade de Medicina), Rocha Lima (Instituto Biológico) e Vicente Rao (Faculdade de Direito) discutiu e elaborou o decreto de criação da Universidade. Em 25 de janeiro de 1934, Armando de Salles Oliveira assinou o Decreto Estadual n 6.283, instituindo a Universidade de São Paulo. No bojo das reformulações almejadas pela Revolução de 30, no ano de 1931 foram tomadas uma série de medidas normatizando o ensino no país. Foi criado o Conselho Nacional de Educação e realizada a reforma educacional que ficou conhecida com o nome do ministro Francisco de Campos1. Nesse mesmo ano o decreto federal n 19.851 instituiu forma definitiva o estatuto do ensino universitário em nosso país e a USP foi a primeira reordenação do ensino superior a entrar em funcionamento após a promulgação deste decreto.
Comentando a novidade que este decreto trouxe, Azevedo afirmou: "[.] a primeira universidade que teve o Brasil criada com um novo espírito e uma organização nova, e já sob o regime estabelecido por esse decreto, foi a de São Paulo. [.] A originalidade desse sistema criado em 25 de janeiro de 1934, de acordo com o decreto federal, que então entrou realmente em execução, foi não somente a incorporação no organismo universitário, de uma Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, que passou a constituir a medula do sistema, como também a preocupação dominante da pesquisa científica e dos estudos desinteressados, dentro aliás do espírito da lei federal que regulou as universidades brasileiras. O governo provisório da República instituiu em 1931 o regime universitário, mas foi São Paulo que tomou em 1934 a iniciativa de executá-lo em sua plenitude" (Azevedo, 1971). A USP instalou-se na região mais dinâmica do país, na cidade que concentrou o processo de industrialização no Brasil, para o qual ela se apresentou como um fermento evolutivo. As relações entre a USP e a cidade sempre foram muito intensas; ela "[.] extraiu de São Paulo da cidade diretamente, e do Estado por vários canais concomitantes uma grande parte de sua vitalidade" (Fernandes, 1984).
USP: MODELO BRASILEIRO DE UNIVERSIDADE
OS CAMPI DA USP NO ESTADO DE SÃO PAULO:
Hoje a USP é formada por 35 unidades (faculdades, escolas, institutos) distribuídas por seis campi: Cidade Universitária, em São Paulo, capital; Bauru; Piracicaba; Pirassununga; Ribeirão Preto e São Carlos. Mantém também instalações nos seguintes municípios: Mogi das Cruzes e Anhembi, onde a Escola de Agricultura "Luiz de Queiroz" possui estações experimentais, e Valinhos, onde o Instituto Astronômico e Geofísico opera o Observatório Astronômico. Na região do litoral paulista, em São Sebastião, está sediado o Centro de Biologia Marinha; em Ubatuba e Cananéia, o Instituto Oceanográfico mantém bases de pesquisa. A USP possui ainda unidades em Marabá, na Amazônia.
A USP E A SOCIEDADE DE SEU TEMPO: ALGUNS HIGHLIGHTS
O registro da experiência vivida nesses sessenta anos é um elemento importante na preservação da história institucional, que possibilita colher da experiência passada o espírito empreendedor e de modernização que presidiu a criação da USP, caracterizando sua evolução até os dias atuais. Continuamente a USP inovou, implantou sistemas em todas as áreas do conhecimento, visando prioritariamente a formação de recursos humanos como fator de desenvolvimento. Sob este aspecto, deve-se destacar que a USP não se limitou a formar profissionais de importância só regional. Ao longo desses sessenta anos, ela constituiu-se num pólo de atração para estudantes provenientes de todo o país e América Latina. Seguindo o padrão instituído no decreto de fundação, o ensino sempre se desenvolveu em absoluta sintonia com as atividades de pesquisa em todos os campos do saber. Este padrão criou um espírito de investigação que está presente em todos os setores. Nas áreas técnicas, seus laboratórios forneceram à indústria brasileira o respaldo necessário para sua implantação e desenvolvimento. No âmbito das humanidades, o compromisso crítico que está na base da Universidade fez do Brasil um dos principais temas da pesquisa, constituindo-se assim um conhecimento original e apaixonado sobre vários aspectos de nossa cultura e sociedade. Neste contexto, a Universidade estabeleceu uma rica e complexa teia de relações com a sociedade da qual participa, em todos os aspectos: da vida cultural, literária, artística à científica, política, social, econômica e industrial.
O exame de alguns highlights que pontuaram a sua trajetória, no âmbito da pesquisa, da ciência, da produção tecnológica, da prestação de serviços à comunidade, permite individualizar melhor o papel que a Universidade de São Paulo vem desempenhando. Um bom indicador do prestígio acadêmico dos projetos ora mencionados evidencia-se nas diversas subvenções recebidas de entidades de fomento à pesquisa, nacionais e internacionais, cujos auxílios e bolsas possibilitaram a implementação definitiva de investigações de alta relevância social.
HOSPITAL DAS CLÍNICAS: COMPLEXO HOSPITALAR NA VANGUARDA DO CONHECIMENTO MÉDICO
Como vimos anteriormente, por ocasião da criação da Universidade de São Paulo, algumas áreas do conhecimento já estavam bem estruturadas e haviam estabelecido uma tradição de pesquisa no país. A área da medicina é uma delas, tendo recebido sucessivas subvenções de fundações nacionais e estrangeiras, como a Rockfeller, Kellog, Guggenheim, Ford, entre outras.
O ensino médico na Universidade de São Paulo conta com um dos mais importantes hospitais-escola da América Latina: o Complexo do Hospital das Clínicas, voltado à assistência, ensino e pesquisa. Inaugurado a 19 de abril de 1944, o edifício central reunia em seus dez andares todas as especialidades médicas à época, além de laboratórios e áreas administrativas. A partir dos anos 50, as rápidas transformações ocorridas no setor e a necessidade de aprofundamento da pesquisa em algumas áreas fizeram surgir outros institutos: o Instituto de Ortopedia e Traumatologia, 1952; o Instituto de Psiquiatria, 1953; o Instituto do Coração, 1975; o Instituto da Criança, 1976; o Instituto de Radiologia, 1994; além de três hospitais auxiliares, dois de retaguarda e um de reabilitação profissional, laboratórios de investigação médica, de ressonância nuclear magnética, além de núcleos de extensão de várias clínicas.
O conjunto de edifícios do Complexo do Hospital das Clínicas no bairro de Pinheiros, ocupando uma área de 300000 m2, incorporou-se definitivamente à paisagem urbana paulista e parcela significativa da população da cidade se beneficia de seus serviços, incluindo o Pronto Socorro. Diariamente circulam no complexo cerca de 30000 pessoas entre pacientes, servidores e visitantes. A produção científica, as pesquisas laboratoriais, clínicas e os programas de educação continuada desenvolvidas no Complexo do HC têm assegurado à instituição constante aprimoramento dos serviços prestados à população, bem como a formação profissional. Seus institutos são centros especializados, com equipamentos de última geração. Desenvolvem atividades nos campos de ensino, pesquisa e assistência, atendendo uma demanda crescente de pacientes. O Instituto do Coração InCor é um dos mais importantes centros especializados no campo da cardiologia no país, ocupando posição de hospital de referência nesse setor. Visando permanecer na vanguarda do conhecimento técnico-científico no setor cardiológico, o InCor mantém diversos programas de pesquisa e desenvolvimento. A divisão de Bioengenharia coordena um desses programas voltados para o desenvolvimento e produção de dispositivos, equipamentos e instrumentos para assistência circulatória, mecânica e biomecânica. Esta divisão é responsável pela produção de um verdadeiro arsenal de equipamentos médicos e dispositivos de alta complexidade técnica e científica: ventrículos artificiais implantáveis, bombas axiais, próteses valvares e penianas, e outros.
HC DE RIBEIRÃO PRETO: UMA INEGÁVEL VOCAÇÃO ASSISTENCIAL NO INTERIOR
Ainda na área da saúde vale destacar a atuação do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, que, além de dar suporte às atividades educacionais da Faculdade de Medicina e da Escola de Enfermagem, atende parcela significativa da demanda de saúde da região. Este hospital inaugurou em junho de 1995 o Centro de Cirurgia de Epilepsia CIREP , vinculado ao Departamento de Neurologia da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto. Contando com sofisticada infra-estrutura de equipamentos e tecnologias na área, o Centro desenvolve investigações, pesquisas e presta assistência a pacientes portadores de epilepsia.
PRESERVANDO O MEIO AMBIENTE
A preservação dos recursos naturais é a principal preocupação do Centro de Recursos Hídricos e Ecologia Aplicada CRHEA ligado ao departamento de Engenharia Hidráulica e Saneamento, da Escola de Engenharia de São Carlos. Criado em 1976, o Centro se localiza numa área de 84 hectares, na Represa do Lobo, município de Itirapina, e constitui-se num complexo de instalações e laboratórios para realização de pesquisas e cursos nas áreas de proteção aos recursos ambientais, hidrobiologia, hidráulica e meteorologia. A disponibilidade de uso de toda a região da represa para realização de pesquisas tem possibilitado ao CRHEA acumular uma diversidade expressiva de dados, viabilizando a realização desde estudos hidrológicos da bacia do rio dos Lobos, de monitoramento da qualidade ambiental da região, até o Projeto do Médio Tietê, que consiste no estudo limnológico de seis reservatórios localizados nessa área. Trata-se de projeto de grande importância, tendo em vista o aproveitamento múltiplo desse trecho do rio. Além disso, o Centro fornece cursos internacionais e mantém convênios com instituições de pesquisa em meio ambiente e recursos hídricos de grandes centros na Europa e América do Norte.
CIÊNCIAS BÁSICAS NO CAMPO DA SAÚDE
O ensino das cadeiras básicas no campo das ciências biológicas passou por um processo de reestruturação no ano de 1969, através da Reforma Universitária. Mas antes desta data, a área já se achava bastante desenvolvida nas seguintes unidades: Faculdade de Medicina, Odontologia, Medicina Veterinária, Enfermagem, Obstetrícia, Farmácia e Saúde Pública. A fusão das cadeiras básicas dessas unidades para constituição do Instituto de Ciências Biomédicas ICB carreou a expressiva tradição acadêmica e científica para o novo Instituto, que passou a ser responsável pelo ensino do ciclo básico de áreas profissionalizantes. Além do ensino, o ICB realiza intensa atividade de pesquisa, através de seus sete departamentos, em áreas que envolvem desde a neuroanatomia, farmacologia bioquímica, até a fisiologia renal, biologia molecular, virologia, microbiologia, imunologia pediátrica, entre outras. No mundo das investigações médicas e biológicas, o êxito das pesquisas se deve a vários fatores, que incluem ampla infra-estrutura: laboratórios, equipamentos e instalações. É preciso, por um lado, dispor de equipamentos científicos de alta precisão, e, por outro, ter o domínio de um verdadeiro sistema experimental montado em torno de animais-cobaia: as unidades de biotério. O ICB dispõe de seu próprio biotério, responsável pela criação de animais de diferentes espécies para desenvolvimento de trabalhos. Junto ao Departamento de Imunologia existe o biotério de camundongos isogênicos, que atende aos departamentos do Instituto e a várias entidades paulistas e brasileiras, fornecendo animais da melhor qualidade biológica do país. Além deste, o Instituto dispõe também de um biotério central, ambos devidamente instalados para o desenvolvimento de colônias desta categoria. Ao lado de outras áreas, as pesquisas em ciências biomédicas constituem-se, sem dúvida, num dos setores de vanguarda da Universidade de São Paulo.
ENSINO E PESQUISA NA ÁREA DE CIÊNCIA BÁSICA
O decreto institutivo de 1934 trazia um grande destaque ao ensino e à pesquisa das ciências básicas, com base nas novas concepções vigentes acerca do papel da Universidade. A vinda dos professores estrangeiros incrementou ainda mais este setor e, em poucos anos, a USP se transformou num dos principais centros de pesquisa científica nas áreas de física, química e matemática. Até 1970 o ensino dessas disciplinas era ministrado através dos vários departamentos da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras FFCL. Com a Reforma Universitária esses departamentos transformaram-se em institutos independentes, reunindo em um só instituto docentes da FFCL, da Escola Politécnica, da antiga Faculdade de Ciências Econômicas e Administrativas, entre outras. A mescla de agrupamentos científicos com experiências diversas, somada à expressiva tradição da pesquisa pura herança deixada por Albanesi, Dieudonné, Fantappie, Hauptmann, Rheinboldt, Wataghin, só para citar algumas personalidades de relevo que lá ensinaram hoje se reflete nas atividades do Instituto de Física, do Instituto de Matemática e Estatística e do Instituto de Química. O Instituto de Física da Universidade de São Paulo é a maior e mais antiga instituição de pesquisa e ensino de física no Brasil. Já nos anos 40 projetou-se internacionalmente através das investigações sobre raios cósmicos. Durante a Segunda Guerra, o Departamento de Física da FFCL prestou colaboração à Marinha, desenvolvendo sistema sonar para proteger os navios brasileiros dos submarinos do Eixo. Particularmente relevantes foram os estudos de física nuclear, que levaram à instalação dos primeiros aceleradores nucleares no país: o Betatron, em 1948 e o Gerador Eletrostático, em 1955. A física dos materiais levou à instalação do primeiro microscópio eletrônico, na Escola Politécnica, em 1948 e, alguns anos depois, o primeiro liquefator de hélio, no Laboratório de Física do Estado Sólido e Baixas Temperaturas. Atualmente o Instituto mantém laboratórios de física experimental em física nuclear de baixa e de altas energias, detetores e instrumentação nucleares, física do estado sólido e baixas temperaturas, física de plasma, cristalografia, ótica, epitaxia de feixes moleculares, microscopia eletrônica, biofísica, poluição do ar, análise de materiais por feixes iônicos, entre outros. A história da matemática no Brasil neste século está ligada ao Instituto de Matemática e Estatística IME, da USP. Com ele colaboraram personalidades relevantes que estabeleceram diversas linhas de pesquisa em matemática: estatística, matemática, matemática aplicada, ciência da computação. Indicador significativo do prestígio científico da instituição advém das avaliações da Organização dos Estados Americanos OEA, que considerou o IME como instituição de excelência, que recebe inúmeros bolsistas latino-americanos para seus programas de pós-graduação. A contribuição da Universidade de São Paulo no âmbito das ciências químicas foi de grande relevância para o estabelecimento das pesquisas neste setor no país. Numerosas foram as iniciativas de pesquisa, principalmente entre seus docentes, sempre vinculadas às atividades de ensino, algumas porém com possibilidades de aplicação industrial. Com a rápida expansão industrial e o crescimento da demanda em investigações científicas e tecnológicas neste século, as pesquisas químicas alcançaram grande desenvolvimento. Hoje, o Instituto de Química mantém programas de envergadura e caracteriza-se pela associação entre químicos e bioquímicos, pouco usual entre as tendências nacionais e internacionais vigentes no setor. A associação entre esses dois segmentos, a crescente afinidade entre ambos e a postura interdisciplinar que sempre norteou as pesquisas na Instituição, permitiram ao Instituto de Química implantar número expressivo de grupos de pesquisa, envolvidos num amplo espectro das ciências químicas, bioquímica, biologia molecular e biologia celular.
INVESTIGANDO NA PROFUNDEZA DOS OCEANOS
Os avanços tecnológicos vêm permitindo ao homem alargar cada vez mais as fronteiras do conhecimento sobre os recursos naturais. Apesar disto, neste final de milênio, as profundezas oceânicas e a complexidade de suas relações com os ecossistemas terrestres continuam a desafiar cientistas e pesquisadores, que, num esforço conjunto e multidisciplinar, dedicam-se ao estudo da oceanografia. No Brasil, a primeira instituição voltada à investigação e difusão dos conhecimentos sobre os recursos vivos e não-vivos do mar brasileiro foi o Instituto Paulista de Oceanografia, incorporado em 1951 à Universidade de São Paulo, dando origem ao atual Instituto Oceanográfico IO-USP. A atividade do IO-USP é marcante na área de meio ambiente e recursos marinhos, dedicando-se ao ensino, à execução de programas de pesquisa nacionais e internacionais e à prestação de serviços à comunidade. Faz parte também da estrutura da Instituição uma flotilha, composta pelas embarcações "Albacora", "Vellinger II" e pelo navio oceanográfico "Prof. W. Besnard".
Esse navio possui 49,35m de comprimento e 700t, com acomodações para 15 pesquisadores, autonomia de 20 dias e está equipado com sistema de posicionamento por satélite, sonar para localização de cardumes, correntômetros e demais instrumentos específicos para as pesquisas costeiras. Foi com ele que o Brasil participou dos programas internacionais de pesquisa desenvolvidos na Antártica, de 1986 a 1990. Além da sede no campus da Cidade Universitária, o IO-USP possui duas bases de pesquisa localizadas em Cananéia (litoral sul) e Ubatuba (litoral norte). Essas bases dispõem de infra-estrutura e equipamento necessário para dar suporte à realização de pesquisas costeiras. Continuando a tradição inaugurada nos anos 50, o IO-USP desempenha hoje um papel essencial não só para a formação e aprimoramento de profissionais, como também fornece subsídios significativos para o delineamento de políticas ambientais no setor.
VANGUARDA DO CONHECIMENTO EM ENGENHARIA
As progressivas transformações da Universidade de São Paulo, o aumento gradual do número de cursos, a criação de institutos e núcleos de pesquisa evidenciam sua capacidade de criar e inovar, sempre baseada numa ampla competência metodológica e científica, com vistas a responder às diversas demandas da sociedade. Neste contexto situam-se as diversas contribuições das unidades e de seus laboratórios. Assim, quando o Brasil aumentou a demanda de tecnologia na área de engenharia de eletricidade e viveu um verdadeiro boom no setor da informática e eletrônica, a Escola Politécnica expandiu seus cursos nesses campos. Em seu Laboratório de Sistemas Digitais LSD , que projetou e construiu o primeiro computador do país, a EP-USP desenvolve tecnologia de ponta em informática, tanto em nível de hardware como de software, colaborando também com outras áreas da Universidade, como, por exemplo, o projeto de bioinformática, realizado em conjunto com Faculdade de Medicina da USP. Ainda na área de Engenharia de Eletricidade, vale mencionar as pesquisas de vanguarda do Laboratório de Sistemas Integrados LSI da Escola Politécnica, que atua nos setores de projetos e sistemas digitais visando a pesquisa básica aplicada, bem como a formação de recursos humanos.
RADAR METEOROLÓGICO DE SÃO PAULO
Passo importante para o desenvolvimento de pesquisas, estudos, ensaios e atividades de capacitação de recursos humanos ligados à engenharia de recursos hídricos foi dado em 1990,quando a Universidade de São Paulo, através do Departamento de Engenharia Hidráulica e Saneamento da Escola Politécnica, firmou convênio com o Departamento de Águas e Energia Elétrica DAEE, autarquia da Secretaria de Recursos Hídricos do Governo do Estado de São Paulo. Dentre os projetos realizados no âmbito desta cooperação, destaca-se a participação do Centro Tecnológico de Hidráulica e Recursos Hídricos CTH na operação de um radar meteorológico situado na cabeceira do rio Tietê, no município de Salesópolis. Este radar é a base de informação hidrológica do Sistema de Alerta a Inundações na Cidade de São Paulo, que visa a previsão de eventos hidrológicos críticos na região da Grande São Paulo e a disseminação da informação junto a autoridades públicas competentes. Este equipamento possibilita também o desenvolvimento de uma série de pesquisas acadêmicas interdisciplinares em hidrologia e meteorologia, com a expressiva colaboração do Instituto Astronômico e Geofísico (IAG), Departamento de Meteorologia.
CINEMA E CIDADE
A marcante presença da mídia neste final de século trouxe grande relevância para a reflexão e debate sobre os temas das comunicações, que oferecem um ponto de vista rico para a compreensão da cultura contemporânea. No âmbito da Universidade de São Paulo, os estudos e pesquisas no setor de comunicações são relativamente recentes, datam da década de sessenta, porém foram suficientes para projetá-la em nível nacional e internacional. É nesse contexto que se colocam os esforços de grupos de pesquisadores da área de Cinema, da Escola de Comunicações e Artes ECA. Historicamente, as preocupações críticas com o cinema na USP remontam os anos 40, o Clube de Cinema da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, tendo como figura central Paulo Emílio Salles Gomes. Só mais tarde constituiu-se formalmente uma área acadêmica neste setor e mais uma vez a presença deste intelectual foi decisiva para a implantação dos estudos de cinema no Brasil.
Sobretudo, foi ele quem implantou uma mentalidade preocupada em pensar o cinema dentro das questões cruciais da cultura de nosso tempo. É dentro deste quadro que se coloca a recente iniciativa da Escola de Comunicações e Artes, com o projeto "São Paulo no Cinema: Duas Visões". Trata-se da realização de um conjunto de dois filmes São Paulo Sinfonia e Cacofonia e São Paulo Percursos da Imagem Metropolitana, de 16 mm, com cerca de quarenta minutos de duração cada um. Os filmes trabalham em diferentes vertentes aspectos do imaginário cinematográfico de São Paulo e a presença de São Paulo no cinema, contribuindo para a preservação e recuperação da memória da cidade e do seu patrimônio cinematográfico. A realização deste projeto contou com a colaboração da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP.
SERVIÇOS DE PSICOLOGIA
As ligações da USP com a cidade e sua população apresentam desdobramentos cada vez mais complexos e as várias demandas da comunidade gradualmente vão ensejando a criação de serviços especializados. O Instituto de Psicologia mantém serviços de atendimento à comunidade nas seguintes áreas: terapêutica, orientação e seleção profissional. O Serviço de Aconselhamento Psicológico e o projeto Pré-Escola Terapêutica "Lugar de Vida" situam-se no âmbito do atendimento à comunidade, fornecendo amplo material para a realização de estágios de alunos e pesquisas acadêmicas.
EM TEMPOS DE INFORMAÇÃO COMPARTILHADA
A Universidade de São Paulo tem acompanhado o crescimento vertiginoso que se propaga no âmbito da comunicação por computador, visando agilizar a circulação das informações técnico-científicas. Os esforços conjuntos empreendidos por profissionais do CCE Centro de Computação Eletrônica, da CCI Comissão Central de Informática possibilitaram à USP integrar-se ao mundo on line e participar dos sistemas e redes de informação. Do ponto de vista da história, a presença da rede de computadores no Brasil data de fins de 1984, quando entrou em operação experimental a Rede Pública de Comunicação de Dados por Comutação de Pacotes Renpac, constituída por centros concentradores, centros comutadores e um centro de supervisão e controle. Na Universidade de São Paulo, a implantação da rede contou com a
colaboração de profissionais de várias unidades: matemáticos, estatísticos, cientistas da computação, engenheiros e físicos, que já vinham implantando redes internas em alguns institutos ou faculdades, para realização de pesquisas e atividades pedagógicas.
Entretanto, a velocidade e o volume de circulação de informações pressionavam em direção à busca de conexão com as redes acadêmicas internacionais, já intensamente disseminadas nos Estados Unidos e Europa. Atendendo a esse anseio da comunidade científica paulista, a Fundação de Amparo à Pesquisa Fapesp lançou em 1988 as bases do projeto ANSP
Na Academic Network at São Paulo, visando prover a comunidade científica de meios necessários para a comunicação com seus pares no país e no exterior. Neste mesmo ano, a ANSP já estava integralmente configurada e internacionalmente inscrita como rede cooperante da Bitnet Because it's time Network , uma das redes de maior amplitude e popularização na época. A partir da Fapesp, a rede espraiou-se por muitas instituições e a Universidade de São Paulo foi a primeira a conectar-se com linha dedicada à Fapesp. Em final de 1989, o CNPq Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, notando a necessidade de coordenação nas conexões interestaduais e de montagem de uma estrutura nacional, lançou a RNP Rede Nacional de Pesquisa, sendo que a linha da Fapesp/ANSP era a principal saída para o exterior dessa rede. Em 1991 a ANSP introduziu no Brasil a Internet e rapidamente a USP a ela se integrou através da USPNet, trazendo a seus pesquisadores a possibilidade ampla de acesso às comunidades científicas internacionais. Entretanto, a velocidade e o volume de circulação de informações pressionavam em direção à busca de conexão com as redes acadêmicas internacionais, já intensamente disseminadas nos Estados Unidos e Europa. Atendendo a esse anseio da comunidade científica paulista, a Fundação de Amparo à Pesquisa Fapesp lançou em 1988 as bases do projeto ANSP An Academic Network at São Paulo, visando prover a comunidade científica de meios necessários para a comunicação com seus pares no país e no exterior. Neste mesmo ano, a ANSP já estava integral- mente configurada e internacionalmente inscrita como rede cooperante da Bitnet Because it's time Network , uma das redes de maior amplitude e popularização na época. A partir da Fapesp, a rede espraiou-se por muitas instituições e a Universidade de São Paulo foi a primeira a conectar-se com linha dedicada à Fapesp. Em final de 1989, o CNPq Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, notando a necessidade de coordenação nas conexões interestaduais e de montagem de uma estrutura nacional, lançou a RNP Rede Nacional de Pesquisa, sendo que a linha da Fapesp/ANSP era a principal saída para o exterior dessa rede. Em 1991 a ANSP introduziu no Brasil a Internet e rapidamente a USP a ela se integrou através da USPNet, trazendo a seus pesquisadores a possibilidade ampla de acesso às comunidades científicas internacionais.
SIBi: A INTERAÇÃO DAS BIBLIOTECAS DA USP
O ritmo frenético de produção de informações técnico-científicas e o panorama de intensas transformações da sociedade contemporânea têm levado os profissionais da área de bibliotecas a uma busca sistemática de processos que agilizem a disseminação e tornem mais veloz o acesso às informações. Atualmente, um dos principais recursos facilitadores da localização e obtenção da informação é o compartilhamento dos serviços bibliotecários entre bibliotecas ou entre sistemas e redes de informação, utilizando instrumentos adequados para tal finalidade:
Catálogos coletivos, bibliografias, bases de dados bibliográficos combinados às novas tecnologias de armazenamento e comunicação de dados. A Universidade de São Paulo foi pioneira na implantação de serviços cooperativos na área da informação, criando em 1954, por iniciativa da reitoria, o Catálogo Coletivo de Livros CCL. Hoje este catálogo auxilia usuários de todas as partes do país na localização de obras em diferentes acervos. Abrangendo acervos de 37 bibliotecas da USP e de 58 bibliotecas do Estado de São Paulo, de entidades cooperantes, o CCL atualmente investe em programas de dinamização e informatização. Em 1981, a necessidade de integração sistêmica das bibliotecas da USP levou à implantação e desenvolvimento de um Sistema Integrado de Bibliotecas SIBi, que atualmente reúne 38 bibliotecas, servindo unidades dos diversos campi. A implantação da Redusp possibilitou a criação em 1990 do Banco de Dados Bibliográficos da USP Dedalus, reunindo as informações de catálogo das 37 bibliotecas, num processo de automação de acervos, centralização de informações bibliográficas sobre livros, revistas técnicas, bem como a produção bibliográfica gerada na USP. A chegada da Internet e posteriormente a instalação da fibra ótica na USP permitiram dinamizar os serviços do Dedalus, bem como o estabelecimento de conexões com bibliotecas internacionais, integrando e articulando os pesquisadores brasileiros.
DISQUE BRAILE: AMPLIANDO O ACESSO À INFORMAÇÃO
No esforço de otimizar a circulação de informações, atingindo inclusive público de portadores de deficiência visual, a Universidade de São Paulo firmou convênio com a Prefeitura do Município de São Paulo, através do Sibi, da Faculdade de Educação e da Biblioteca Braile do Centro Cultural Cultural São Paulo, criando o programa Disque Braile, com o objetivo de formar um catálogo coletivo de obras destinadas ao público da Grande São Paulo.
MUSEUS
Estreitamente ligada à dinâmica do Estado de São Paulo, a USP se desenvolveu nesses 60 anos em várias vertentes, de forma a promover a formação de recursos humanos, a pesquisa científica, o desenvolvimento tecnológico e a prestação de serviços. Estruturou-se a partir da incorporação de alguns órgãos já existentes antes de sua cria, dentre os quais os museus. Em 1963, a USP incorporou quatro museus, alargando ainda mais seu âmbito de atuação. Foram agregados: o Museu de Arte Contemporânea, o Museu Paulista, o Museu de Zoologia e o Museu de Arqueologia e Etnologia. Instituições diversas entre si, com vocações e missões próprias, esses museus desempenham importante papel de natureza didática, científico-documental e cultural na Universidade. Modiglianis e Tarsilas, espécimes diversas de besouros e coloridas borboletas, documentos preciosos da cultura nacional, peças da cultura afro-brasileira convivem em suas coleções, internacionalmente prestigiadas. Os museus oferecem à população de São Paulo visitas guiadas, serviços de atendimento às escolas e grupos de estudantes, seminários e intensa programação científico-cultural.
IEB: PENSANDO A CULTURA BRASILEIRA
As investigações sobre a cultura e a história do Brasil encontram no Instituto de Estudos Brasileiros farta documentação sistematicamente organizada em áreas específicas: arquivos, biblioteca e coleção "Mario de Andrade" de artes visuais. Fruto de doações que vêm crescendo no correr dos anos, a coleção de artes visuais reflete o espírito e a paixão do mais importante colecionador de arte brasileira e de seu crítico mais vigoroso, que nos ensinou efetivamente a pensar o Brasil: Mário de Andrade.
EDUSP: A DIFUSÃO DOS CONHECIMENTOS GERADOS NA UNIVERSIDADE
Ao longo de sessenta anos de existência, a USP concentrou sua atuação no ensino superior, promovendo o desenvolvimento da cultura e da pesquisa científica, com uma produção relevante em todas as áreas do saber. A difusão do conhecimento produzido, a criação de novos cursos, as sucessivas reformas de currículo, com a introdução de novas disciplinas e suas necessidades de obras pedagógicas motivaram a criação, em 1966, da Editora da Universidade de São Paulo Edusp. As demandas de leitura do público universitário são específicas e a política editorial da Edusp tem se pautado por critérios que priorizam publicações adequadas a seus leitores, trazendo para o mercado anualmente cifra expressiva de títulos novos, bem como de traduções de autores estrangeiros. O criterioso programa editorial da Edusp inclui títulos que abrangem todas as áreas do conhecimento: da filosofia às artes plásticas, antropologia, design, ecologia. São monografias, ensaios, teses defendidas na USP, que marcam o debate a respeito de questões emergentes na sociedade e na ciência de nossos tempos.
ORQUESTRA SINFÔNICA
A convivência solidária das artes e a sensibilização do ambiente acadêmico para as diversas manifestações artísticas são pontos destacados na política cultural da Universidade de São Paulo. É nesse contexto que se inseriu a criação, em 1975, da Orquestra Sinfônica da USP, visando divulgar a música sinfônica e camerística, promover concertos com finalidade didática nos vários campi da Universidade, bem como divulgar a cultura musical e artística junto à comunidade.
A FORMAÇÃO DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO
A fundamentação do decreto de criação da USP e seus artigos 1 e 2 são os seguintes: "O doutor Armando de Salles Oliveira, Interventor Federal do Estado de São Paulo, usando das atribuições que lhe confere o decreto n19.398, de 11 de novembro de 1930; e considerando que a organização e o desenvolvimento da cultura filosófica, científica, literária e artística constituem as bases em que se assentam a liberdade e a grandeza de um povo; considerando que somente por seus institutos de investigação científica de altos estudos, de cultura livre, desinteressada, pode uma nação moderna adquirir a consciência de si mesma, de seus recursos, de seus destinos; considerando que a formação das classes dirigentes, mormente em países de populações heterogêneas e costumes diversos, está condicionada a organizações de um aparelho cultural e universitário, que ofereça oportunidade a todos e processe a seleção dos mais capazes; considerando que em face do grau de cultura já atingido pelo Estado de São Paulo, com Escolas, Faculdades, Institutos, de formação profissional e de investigação científica, é necessário e oportuno elevar a um nível universitário a preparação do homem, do profissional e do cidadão, decreta: Art. 1 Fica criada, com sede nesta Capital, a Universidade de São Paulo. Art. 2 São fins da Universidade: a) promover, pela pesquisa, o progresso da ciência; b) transmitir, pelo ensino, conhecimentos que enriqueçam ou desenvolvam o espírito ou sejam úteis à vida; c) formar especialistas em todos os ramos de cultura, e técnicos e profissionais em todas as profissões de base científica ou artística; d) realizar a obra social de vulgarização das ciências, das letras e das artes, por meio de cursos sintéticos, conferências, palestras, difusão pelo rádio, filmes científicos e congêneres. Para atingir os fins acima, o artigo 3 deste decreto dispôs sobre o agrupamento das seguintes instituições:
Faculdade de Direito, pertencente ao Governo Federal e criada em 1827; Escola Politécnica, do Governo do Estado de São Paulo, criada em 1893; Faculdade de Farmácia e Odontologia do governo estadual, criada em 1899; Faculdade de Medicina do governo estadual, criada em 1913; Escola de Medicina Veterinária do governo estadual, criada em 1934; Instituto de Educação de 1933, originário do antigo Instituto Caetano de Campos, que participaria da USP pela sua escola de professores; Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, criada pelo decreto em questão; Instituto de Ciências Econômicas e Comerciais, que só se instalou em 1946; e a Escola de Belas-Artes.
OS INSTITUTOS DE PESQUISA E A USP
Dentro do esforço de modernização nacional empreendido nos anos 30 e efetivando o espírito universitário cooperativo, a nova instituição também anexou os seguintes órgãos: Instituto Biológico; Instituto de Higiene; Instituto Butantan; Instituto Agronômico de Campinas, Observatório do Instituto Astronômico e Geofísico; Museu de Arqueologia, História e Etnografia (Museu Paulista); Serviço Florestal e "quaisquer outras instituições de caráter técnico e científico do Estado" (art.4). A incorporação destes organismos pela Universidade demonstra que, desde as suas origens, a USP mobilizou em torno dela o acervo técnico-científico já consolidado e internacionalmente legitimado dos institutos, visando coordenar as várias instituições técnicas e científicas existentes como parte de um sistema, aumentando sua eficiência na prestação de serviços à sociedade.
Alguns desses institutos tiveram origem no século passado, em vista de situações emergenciais enfrentadas pelo Estado de São Paulo e lançaram as bases para a institucionalização da pesquisa em nosso país, desempenhando um papel determinante no processo de modernização e no desenvolvimento tecnológico e científico. Deles participaram profissionais que se empenharam pela realização da pesquisa, enfim uma geração decisiva que definiu os rumos da ciência no país. Dos institutos incorporados pela Universidade de São Paulo, o mais antigo é o Astronômico e Geofísico IAG , de 1886. Foi criado pela Lei Provincial que instituiu a Comissão Geológica, composta por várias seções, entre as quais a de Botânica, dirigida por Alberto Loefgren, um dos pioneiros da pesquisa meteorológica em São Paulo. Este cientista iniciou suas pesquisas em sua própria residência, à rua da Consolação. No início deste século, o engenheiro José Nunes Belfort Mattos mostrou a necessidade de centralização dos serviços meteorológicos, sugerindo que se construísse um observatório. O primeiro foi na avenida Paulista, próximo ao Trianon, mas na década de vinte, com o crescimento de São Paulo, o local foi considerado inadequado devido ao excesso de iluminação. O Parque do Estado foi então escolhido para a instalação do observatório, cuja pedra fundamental foi lançada em 1932. Depois de várias alterações institucionais, o IAG foi considerado órgão complementar da USP em 1934 e definitivamente incorporado em 1946. Novamente o desenvolvimento urbano paulista, bem como as condições climatológicas, levaram à construção de um novo observatório, desta vez fora de São Paulo. Assim, em 1972 foi inaugurado em Valinhos o observatório "Abrahão de Moraes". Neste mesmo ano, o IAG passou a unidade universitária. Na área da Saúde, a Universidade de São Paulo agregou duas importantes instituições: o Instituto Butantan e o Instituto de Higiene.
O Butantan, que originalmente chamava-se Instituto Serumtherapico, sobressaiu-se definitivamente no âmbito das pesquisas e produção de imunobiológicos, e das pesquisas com animais peçonhentos a partir da atuação do cientista Vital Brasil. Hoje, esse instituto pertence à Secretaria de Estado da Saúde. As origens do Instituto de Higiene remontam às experiências pioneiras na área da saúde pública em São Paulo, empreendidas pelo professor Samuel T. Darling, catedrático de Higiene e Saúde Pública da Faculdade de Medicina. O principal continuador da obra deste professor foi o médico Geraldo Horácio de Paula Souza, fundador do Instituto de Higiene, em 1924, mais tarde transformado em Escola de Saúde Pública. A partir de 1945 esse instituto passou a unidade de ensino da USP. Dentre os institutos, ainda deve-se destacar a Imperial Estação Agronômica de Campinas, criada em 1887 por iniciativa do conselheiro Antonio Prado. Em 1893, esse órgão passou a ser denominado Instituto Agronômico de Campinas IAC e constitui-se num marco da implantação da pesquisa em tecnologia agropecuária no país, tendo sido orientado inicialmente por Franz W. Dafert.
Em 1934 foi incorporado à Universidade de São Paulo, mas hoje pertence à Secretaria da Agricultura do Estado de São Paulo. O decreto de criação da USP previu também a incorporação do Museu Paulista (Museu do Ipiranga). Fundado em 1893, o Museu instalou-se num edifício no bairro do Ipiranga, às margens do Riacho do Ipiranga, célebre por ter sido o local da Proclamação da Independência do Brasil. Em 1869 a Câmara de São Paulo constituiu uma comissão para encetar a construção de um monumento para comemorar a Independência do Brasil. O projeto dessa obra é de autoria de Tomazio Gaudenzio Bezzi. Já em fins daquele ano, o jornal A Província de São Paulo noticiava a cerimônia pomposa do lançamento da pedra fundamental, com um desfile de 300 operários "com picaretas e pás enfeitadas, transportando a pedra em padiola da rua São Bento até o alto do Ipiranga" (apud Salmoni, 1981). Esse edifício, cujas obras só foram iniciadas em 1885 e concluídas quatro anos depois, transformou-se num importante ponto de referência na paisagem urbana de São Paulo, com seus amplos jardins que lembram as geometrias de Versalhes.
AS ESCOLAS SUPERIORES EXISTENTES E SUA INCORPORAÇÃO PELA USP
Além dos institutos, a Universidade aglutinou também outras escolas superiores já existentes, pertencentes ao governo federal e estadual, delineando mudanças significativas que concorreram para a modernização da classe dirigente paulista. Foram anexadas escolas tradicionais de formação de profissionais liberais, já sedimentadas no sistema de ensino e no mercado de trabalho: Direito, Engenharia, Medicina, Farmácia, Odontologia e Agricultura. Estas escolas passaram a conviver com as novas especialidades oferecidas pela USP, ultrapassando certas hierarquias do conhecimento numa época em que: "os diplomas de bacharel em direito, doutor em medicina e engenheiro conferiam uma espécie de nobreza funcional na sociedade de mentalidade ainda meio estamental, empurrando para baixo a arraia miúda das outras escolas superiores" (Candido, 1980). No contexto da academia, as três grandes escolas Direito, Medicina e Engenharia passaram a compartilhar de um sistema universitário que valorizou igualmente todas as outras escolas profissionais, dentro do espírito da cooperação científica, que até hoje é parte essencial da vitalidade da instituição. A história da ciência e da administração pública no Brasil deve muito aos profissionais formados por essas escolas.
Eles desempenharam um papel destacado, não somente pelo exercício de suas funções técnicas específicas, mas também pela contribuição relevante no contexto político-social, no exercício de cargos no serviço público.
FACULDADE DE DIREITO
A tradicional prática de formação de bacharéis e dos estudos de ciências jurídicas em Coimbra ficou inviabilizada com a Independência, motivando assim a criação dos cursos de Direito no país pelo Imperador D. Pedro I. Foi então promulgada a lei de 11 de agosto de 1827 que instituiu dois cursos de ciências jurídicas e sociais, um na cidade de Olinda e outro na cidade de São Paulo. Em São Paulo, o curso foi sediado no convento de São Francisco, daí advindo mais tarde a consagrada designação Faculdade de Direito do Largo de São Francisco.
Conforme relato de seu primeiro diretor, José Arouche de Toledo Rendon, o curso foi acomodado "[.] com três aulas em cima e com quatro embaixo para os estudos preparatórios, sem demolir nada e sem vexame para os frades" (Morse, 1970). Foi nesse edifício emprestado que a Academia ensinou as várias especialidades do Direito (eclesiástico, marítimo, criminal etc.), economia política, além de francês, latim, retórica, filosofia e geometria, desempenhando um papel central e praticamente hegemônico no campo da cultura filosófica e política em São Paulo até meados da República Velha. Neste contexto, a Faculdade de Direito tornou-se uma referência obrigatória no âmbito do ensino e fora dele: "[.] a instância suprema no campo de produção ideológica, concentrando inúmeras funções políticas e culturais. No interior do sistema de ensino destinado à reprodução da classe dominante, ocupava posição hegemônica por força de sua contribuição à integração intelectual, política e moral dos herdeiros de uma classe dispersa de proprietários rurais aos quais conferia uma legitimidade escolar.
A Faculdade de Direito atuava ainda como intermediária na importação e difusão da produção intelectual européia, centralizando o movimento editorial de revistas e jornais literários; fazia as vezes de celeiro que supria a demanda por elementos treinados e aptos a assumir os postos parlamentares e os cargos de cúpula dos órgãos administrativos, além de contribuir com o pessoal especializado para as demais burocracias, o magistério superior e a magistratura" (Miceli, 1979). A presença dos estudantes de Direito modificou sobremaneira a fisionomia da Paulicéia no final do século XIX, alterou hábitos e costumes que levaram Ernani da Silva Bruno a definir São Paulo, entre 1828a 1872, como um burgo de estudantes (Bruno, 1954). Com seu bulício saudável e o vaivém pelas ruas os estudantes trouxeram para a cidade novas demandas: as casas de diversões, os teatros, os grêmios, os programas culturais, as repúblicas que agregaram várias gerações. "Das repúblicas, a sociabilidade literária se expandia pelos grêmios, inaugurados pela 'Filomática: O Ensaio Filosófico', 1850; o 'Ateneu Paulistano', 1852, a 'Associação Culto à Ciência', 1857 (de prepara- torianos); o 'Instituto Acadêmico', 1858; o 'Clube Literário', o 'Instituto Científico'. Merece lugar à parte a 'Epicuréia' (1845), espécie de ponto de encontro entre a literatura e a vida, onde os jovens procuraram dar realidade às suas imaginações românticas. Foi uma experiência do maior significado para definir o que houve de mais característico no romantismo paulistano, na qual o exemplo conscientemente seguido, dos personagens de Byron e Musset foi entroncar-se inconscientemente na tradição do Marquês de Sade" (Candido, 1976). O espaço democrático das Arcadas, como ficou conhecido o prédio da Faculdade de Direito em alusão às arcadas na estrutura do edifício, abrigou momentos
decisivos da política estudantil: das sociedades secretas a Burchenschaft fundada em 1831 por Júlio Frank, professor de História e Geografia do curso anexo, às campanhas pela redemocratização e reconstrução do país.
Ainda que a Faculdade de Direito tenha iniciado suas atividades em um edifício emprestado, uma característica que aliás permaneceu na trajetória das instalações físicas da própria Universidade, anos depois ela ganhou um novo edifício, em estilo neocolonial, construído pelo Escritório Técnico Ramos de Azevedo em dezembro de 1934, já com projeto de Severo & Villares. "As fachadas contêm elementos do repertório neoclássico: simetria, frontão, colunas com capitéis, arcos romanos etc.
O compromisso com o movimento neocolonial manifesta-se principalmente na fachada do Largo de São Francisco, sobre o fontão da arcada principal de entrada e dois frontões laterais. As janelas distinguem-se de pavimento a pavimento, conforme as necessidades de diferenciação hierárquica simbólica. O aspecto pesado e monumental do edifício resulta dos inesgotáveis revestimentos de sua estrutura de concreto, emprestando ao espaço arquitetural algo da retórica condoreira dos antigos bacharéis" (Daher e Santos, 1985). Visando atender as demandas de espaço, em vista da ampliação de suas atividades acadêmicas, nos anos 90 a Faculdade ganhou outro edifício, que funciona anexo às tradicionais Arcadas.
ESCOLA POLITÉCNICA
A presença dos engenheiros também se constitui numa outra referência obrigatória no quadro da vida universitária. A mentalidade sistematicamente comprometida com o futuro e com as inovações tecnológicas desses profissionais levou-os a desempenhar um papel decisivo no processo de modernização da sociedade brasileira. É importante ressaltar que a atuação dos engenheiros não se restringiu às áreas tecnológicas; eles também exerceram cargos administrativos e participaram ativamente das reformas da instrução em curso. Isto se deve, "[.] de um lado, pela formação humanista e letrada que subsistia nas escolas politécnicas desde os tempos do Império e, de outro, pelas transformações por que passava o mercado de postos destinados aos detentores de diplomas superiores. Ante as resistências que vinham encontrando os projetos que visavam introduzir as ciências sociais no currículo dos cursos jurídicos, os engenheiros dispunham de um mínimo de aptidões culturais para se lançarem em novas especializações do trabalho intelectual, tidas como carreiras subalternas, incapazes de atrair os bacharéis em direito e desviá-los das carreiras tradicionais ( a representação parlamentar, a magistratura, o magistério superior, o jornalismo)" (Miceli, 1979).Os primórdios do ensino de engenharia em São Paulo remontam às primeiras décadas do século XIX, quando em 1835 foi criado o Gabinete Topográfico. A São Paulo de então pouco exigia em matéria de grandes obras de engenharia, mas tracejar, localizar e abrir estradas era uma necessidade básica para se atingir novas condições de vida. Neste sentido, criou-se uma instituição concebida para formar topógrafos medidores de terra e engenheiros construtores de estradas.
Em fins do século XIX surgiram novas condições econômicas e sociais orientadas a favor do desenvolvimento e da industrialização. O Estado viveu uma fase de intenso progresso material,
tornando cada vez mais iminente a necessidade de se criar uma escola de engenharia em São Paulo que proporcionasse a solução dos problemas técnicos que afligiam a cidade, bem como as sólidas bases para a industrialização. Catalisando todas essas exigências, foi criada, em 24 de agosto de 1893, pela lei n 191, a Escola Politécnica de São Paulo, informalmente chamada pelo alunos de Poli. Esta lei estabeleceu a primeira organização curricular para a Escola, visando responder às necessidades de industrialização e evolução de seu tempo, uma evolução tão rápida e imprevisível que foi exigindo da escola, tanto quanto possível, precedê-la em certas tendências gerais. A Politécnica instalou-se no bairro da Luz, uma região da cidade de valor geográfico peculiar: ponto de passagem dos vários sistemas ferroviários, um dos primeiros núcleos culturais da cidade, onde estavam sediados o Ginásio do Estado, a Pinacoteca do Estado, a Escola Livre de Farmácia, a Faculdade de Odontologia e o Liceu de Artes e Ofícios. Ao lado dos estudantes que freqüentavam estabelecimentos de ensino sediados na região, os politécnicos trouxeram para o Bairro da Luz sua presença energética e vibrante ao redor das repúblicas, das tradicionais atividades desportivas e culturais, do Grêmio Politécnico. O conjunto dos edifícios da Escola Politécnica na Luz constituiu um importante referencial para a paisagem urbana paulista. São monumentos arquitetônicos que refletem diferentes épocas da vida da cidade. O primeiro e mais antigo, onde se iniciaram os cursos a 15 de fevereiro de 1894, é o Solar do Marquês de Três Rios. Uma antiga residência senhorial paulista, construída em meados do século XIX e demolida em 1929. Com o correr dos tempos, o acréscimo de cursos e atividades didáticas passou a exigir instalações mais específicas para salas de aulas, laboratórios e gabinetes. O velho edifício foi-se mostrando pequeno e insuficiente. A Politécnica construiu então novo prédio, mais apropriado e condizente com sua importância. Em janeiro de 1899 foi solenemente inaugurado o edifício Paula Souza, que leva o nome do criador e primeiro diretor da escola Antonio Francisco de Paula Souza , com projeto do estúdio de Ramos de Azevedo. O prédio era ladeado por dois pavilhões térreos, onde se instalaram os primeiros laboratórios da escola: o Gabinete de Resistência dos Materiais, matriz do futuro Instituto de Pesquisas Tecnológicas IPT e as oficinas para trabalhos em ferro, metais e carpintaria. Passada essa primeira fase de expansão, a Escola Politécnica achava-se em condições de virar o século com ampla disponibilidade de espaço. No entanto, o desenvolvimento da industrialização impulsionava cada vez mais a ampliação do número de cursos, fazendo-se pois necessária a construção de outros prédios. Sucessivamente foram sendo construídos edifícios destinados aos diversos cursos da Escola Politécnica. Pela expressão arquitetônica, deve-se ressaltar o Edifício Ramos de Azevedo e o Edifício Rodolpho Batista de São Thiago. No final dos anos 60, as transformações decorrentes da implantação da grande reforma didática de 1955 trouxeram acréscimo significativo de cursos, disciplinas, atividades de laboratório e grande impulso à Escola Politécnica. As possibilidades de expansão física das instalações no Bairro da Luz praticamente inexistiam, o que tornou inevitável a transferência da Escola para o campus da Cidade Universitária Armando de Salles Oliveira. Em suas novas instalações no campus, a Politécnica comemorou seu centenário e continua empenhada na formação dos profissionais que serão responsáveis pela gestão da tecnologia paulista e brasileira no século XXI. Tarefa complexa e delicada, pois neste limiar de século o alcance humano do desenvolvimento científico-tecnológico é impactante e os engenheiros são artífices essenciais desse processo e dele devem participar "[.] sem prejuízo das próprias tarefas especializadas [.], com o coração, na formação desse novo mundo que lhes sai da cabeça e das mãos" (Costa, 1961).
FACULDADE DE ARQUITETURA E URBANISMO
O ensino de arquitetura na Universidade de São Paulo se iniciou no ano de 1894, ministrado no âmbito da Escola Politécnica como curso de formação de engenheiros arquitetos. Em relação aos demais cursos ministrados nessa Escola, caracterizados por um ensino fortemente racionalista e tecnicista, o curso de engenheiros arquitetos aliou ao rigor intrínseco das ciências exatas e das outras cadeiras integrantes da formação dos engenheiros, várias disciplinas humanísticas, arte e desenho do projeto.
Em 1948 foi criada a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e o ensino da arquitetura separou-se definitivamente da Escola Politécnica, sob a liderança do professor Luiz Ignacio Romeiro de Anhaia Mello. A nova Faculdade foi instalada num edifício situado à rua Maranhão, 88 a Vila Penteado em referência ao conde Antônio Álvares Penteado, antigo proprietário do imóvel, doado à Universidade de São Paulo. Com a instalação da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, esse edifício de valor histórico e cultural, projetado pelo arquiteto sueco Carlos Ekman, tornou-se centro de um conjunto de programas culturais e do debate sobre a arquitetura. Em 1969 foram concluídas as obras do novo edifício da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo no campus da Cidade Universitária, uma obra prima de arte e técnica projetada por João Batista Vilanova Artigas, que lhe valeu o Prêmio Jean Tschumi 72, da União Internacional de Arquitetos. Desde então o edifício, de linhas puras e formas sinuosas, exemplar típico do Art Nouveau, abriga os cursos de pós-graduação.
FACULDADE DE FARMÁCIA E ODONTOLOGIA.
A Faculdade de Farmácia e Odontologia começou em 1899 como Escola Livre de Farmácia de São Paulo, resultado do empenho firme de um grupo de profissionais farmacêuticos preocupados com a saúde pública e higiene, às vésperas do século XX. Em janeiro de 1899, seu primeiro diretor Bráulio Gomes alugou uma casa na rua Brigadeiro Tobias n1, esquina com Santa Efigênia, para a instalação da escola. Esse edifício modesto, porém adequado ao funcionamento da nova Faculdade, contava "com três salas de aulas, quatro gabinetes para laboratórios e uma sala para a Congregação" (Pinto, 1900). Alguns anos depois, esse mesmo prédio passou a abrigar a Faculdade de Medicina. A partir de 1902, com a criação de dois novos cursos, Prótese Dentária e Obstetrícia, o nome original da instituição foi alterado para Escola de Farmácia, Odontologia e Obstetrícia de São Paulo. Com o aumento de atividades, as instalações ficaram inadequadas e em 1905 a escola se transferiu para sua nova sede, situada em parte da Chácara Dulley, à rua Marquês de Três Rios, no Bom Retiro. Em 1934, quando da incorporação à USP, a Obstetrícia já tinha deixado de ser especialização de seus cursos. Só em 1962 se deu a separação entre Farmácia e Odontologia, ficando esta última com a sede da rua Três Rios. ESCOLA SUPERIOR DE AGRICULTURA "LUIZ DE QUEIROZ" A Escola Superior de Agricultura "Luiz de Queiroz" (ESALQ) teve sua origem antes da virada do século. Está associada ao empenho decisivo de Luiz Vicente de Souza Queiroz, que, compreendendo a importância econômica e social de uma escola de agronomia no Brasil, arrematou, em 1891, a Fazenda São João da Montanha, em Piracicaba, e iniciou a construção da escola. Dispondo de condições respeitáveis de campos de demonstração de práticas agrícolas, espaço e equipamentos, laboratórios, museus, estábulos e leiteiras, a Escola foi inaugurada em 3 de junho de 1901. Sua construção começou com a participação de duzentos operários, diretamente supervisionados por Luiz de Queiroz. O projeto do edifício principal, com seu porte solene e austero, é do engenheiro-agrônomo Morimont. Os amplos jardins com palmeiras imperiais, incorporados definitivamente à fisionomia piracicabana, foram projetados em 1907 pelo arquiteto-paisagista Arsenio Puttemans. A Escola que então iniciava suas atividades tinha por objetivo: "difundir no Estado de São Paulo as noções, preceitos e práticas mais úteis à agricultura por meio de lições teóricas elementares e demonstrações essencialmente práticas a elas correspondentes" (decreto estadual 863-A, 29/12/1900). Este primeiro regulamento foi sucessivamente modificado, introduzindo-se alterações e ampliações que mantiveram sempre o alto nível da escola, sobretudo na conjugação das atividades práticas e teóricas. Até 1934 a ESALQ era vinculada à Secretaria da Agricultura do Estado de São Paulo; a partir dessa data foi integrada à Universidade de São Paulo.
FACULDADE DE MEDICINA.
A implantação do ensino médico em São Paulo enfrentou certas vicissitudes; foi um processo lento, que se iniciou em fins do século passado. As primeiras notícias sobre o ensino de medicina na capitania de São Paulo datam de 1804, quando o então governador da capitania Antonio José da Franca e Horta comunicou ao Ministro e Secretário dos Negócios Ultramarinos, João Rodrigues de Sá e Melo Soto-Maior, Visconde Anadía, que "seis alunos que freqüentaram em 1803 a aula de cirurgia instituída por mim no Hospital Militar desta cidade, sendo lente o físico-mor Mariano José do Amaral, todos eles foram aprovados pelos examinadores.". Infelizmente esta experiência teve curta duração. A ela seguiram-se outras iniciativas de implantação do ensino médico, mas lamentavelmente a promissora São Paulo de fins do século XIX enfrentava um grave problema: a falta de médicos. Em 24 de novembro de 1891 o presidente do Estado Américo Brasiliense de Almeida e Mello sancionou a lei n19 estabelecendo a criação da Academia de Medicina, Cirurgia e Farmácia. Retardada sua efetivação pelas oscilações políticas nos primórdios da República, somente em 1912 o presidente de São Paulo, Francisco de Paula Rodrigues Alves, sancionou a lei criando a Faculdade de Medicina e Cirurgia, consolidando então os alentados anseios de um grupo de médicos paulistas que então se reunia na Santa Casa de Misericórdia. Dessas reuniões participava o recém-formado Arnaldo Vieira de Carvalho, que se envolveu com a implantação da Faculdade. Incumbido de organizar a escola, Arnaldo buscou espaços para abrigá-la, antes da construção de sua sede própria, contando com a solidariedade da Escola de Comércio Álvares Penteado e da Escola Politécnica, que cederam salas de aula. Aliás a aula inaugural da Faculdade de Medicina foi proferida em 2 de abril de 1913 por Edmundo Xavier, nas instalações da Escola Politécnica. Em 1914 os cursos passaram a ser ministrados na sede provisória, à rua Brigadeiro Tobias, antiga residência da Marquesa de Santos. O crescimento do número de alunos e a ampliação das atividades acadêmicas requeriam uma sede própria. Começou então a longa história da construção do novo edifício, quando o diretor Arnaldo Vieira de Carvalho encomendou projeto ao escritório Ramos de Azevedo. O projeto original previa a construção de cinco blocos de dois pavimentos cada, mas apenas um foi construído, onde depois se situou o Instituto Oscar Freire. O edifício que atualmente abriga a Faculdade foi construído com subsídios da Fundação Rockfeller e o projeto foi concebido por uma comissão da qual faziam parte: Ernesto de Souza Campos, Luiz de Rezende Puech e Benedito Montenegro. O projeto incluiu também a construção de um hospital-escola ligado aos laboratórios de ensino. A pedra fundamental foi lançada em 1928, iniciando-se a construção do bloco dos laboratórios. Em 1931 o novo prédio foi inaugurado, mas as aulas práticas de clínica e cirurgia continuaram a ser ministradas na Santa Casa de Misericórdia até 1944, quando foi concluído o Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina. Em 1934 a Faculdade de Medicina passou a integrar a Universidade de São Paulo. As sólidas bases e a organização estabelecida por Arnaldo Vieira de Carvalho foram elementos decisivos para a Faculdade de Medicina se desenvolver como um dos mais importantes centros de formação de recursos humanos e de desenvolvimento de pesquisa científica na área médica em nosso país.
FACULDADE DE FILOSOFIA, CIÊNCIAS E LETRAS.
O decreto n 6283 traz em seu bojo um caráter integrador: ensejou a possibilidade de romper com o isolamento das escolas tradicionais, que passaram de escolas ou faculdades a unidades universitárias regidas por um mesmo estatuto, e instituiu no centro desse processo uma Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras como organismo de articulação e reflexão, que assumiu estrategicamente "o significado do lugar onde o conhecimento pode ser elaborado dentro de uma perspectiva de unificação dos interesses sociais" (Cardoso, 1982). A Faculdade de Filosofia nasceu com a Universidade de São Paulo e até certo momento de sua história com ela se confunde. Através da Faculdade de Filosofia, a USP adquiriu uma dimensão peculiar que a distinguiu das demais universidades brasileiras. Ela estabeleceu uma organicidade na diferenciação dos vários campos de saber que a compunham: ciência, pedagogia filosofia, letras e "como uma universidade em miniatura, ela sozinha povoou o meio ambiente com nomes notórios em todas as áreas do saber e provocou um surto cultural sem paralelos na história intelectual do país" (Fernandes, 1984). Mas no contexto geral da nova Universidade a articulação em torno da Faculdade de Filosofia apresentou um caráter problemático de pluralidade integrada, "um processo difícil desde o início, porque implicava o enfrentamento de tensões em vários níveis: as relativas às questões universitárias stricto sensu o modelo do núcleo articulador e as resistências que lhe foram opostas, problema retraduzido em outras configurações nos vários momentos da sua história posterior; as referentes às diversas modalidades de representação política da própria Universidade que também se opunham desde a oposição entre o liberalismo conservador, não raro reacionário, e o liberalismo democrático passando pelas oposições entre liberalismo e fascismo, socialismo e fascismo, liberalismo e socialismo, até as do passado mais recente que se revelaram sob a forma da tensão entre autoritarismo e democracia e entre as contemporâneas concepções sobre a democracia na Universidade" (Cardoso, 1995). As vicissitudes ocorridas ao longo desse processo de articulação acabaram por favorecer um espírito de crítica e de contestação que se incorporou ao perfil da instituição. A instalação da Faculdade de Filosofia, que acomodas outras unidades da Universidade, viveu o mesmo processo de conquista pelo espaço físico, social e cultural. Até obter sede própria, ela peregrinou por várias partes da cidade, dividindo com a Politécnica e com a Medicina seus tradicionais espaços. Originalmente foi previsto um espaço para construção da sede própria, mas a aula inaugural da Faculdade e da Universidade de São Paulo realizou-se em 11 de março de 1935 no Teatro Acadêmico da Faculdade de Medicina. A Faculdade funcionou num edifício a ser demolido, onde anos depois a Prefeitura construiu a Biblioteca Municipal. A seguir instalou parte de suas seções na antiga residência Jorge Street, situada na alameda Glete, atrás do Palácio de Campos Elíseos. Também utilizou um imóvel na avenida Brigadeiro Luiz Antonio para abrigar uma de suas seções, enquanto outras foram alojadas no terceiro andar do Instituto Caetano de Campos, na Praça da República, perfeitamente integrada à vida urbana paulistana: entre a Praça da República e o Teatro Municipal. Em 1949, mudou-se para o prédio que a reitoria adquiriu na rua Maria Antônia.
MARIA ANTÔNIA.
Após as sucessivas peregrinações pela cidade, finalmente a Faculdade de Filosofia estabeleceu-se num edifício compatível com o seu status e as novas instalações alcançaram um significado que transcendeu em muito a dimensão física, constituindo-se sobretudo num momento crucial na vida da Faculdade e da cidade. A presença dos estudantes no residencial bairro de Vila Buarque, em conjunto com os alunos do Mackenzie, da Faculdade de Arquitetura, da Faculdade de Economia, da Escola de Sociologia e Política, da Fundação Armando Álvares Penteado, trouxe muita animação e, em pouco tempo, passou a ser o principal centro nervoso das atividades estudantis em São Paulo, praticamente um campus universitário no coração da cidade. De fato, o prédio da Filosofia era um ponto de encontro, "[.] o saguão principal da Faculdade de Filosofia era uma praça fervilhante da manhã à noite. Melhor dizendo: uma encruzilhada onde se conversava no meio de um vaivém de gente chegando e indo, subindo e descendo as escadas, entrando e saindo das salas. Ali ninguém faltava: nem funcionários, nem alunos, nem professores. Mais fervilhante, só a praça maior da vivência dos estudantes, com as instalações do Grêmio, o salão, o restaurante e o pátio"(Simão, 1988). A amplitude das experiências ali realizadas nas diferentes etapas da história da Faculdade de Filosofia colocaram-na na vanguarda do pensamento crítico, da renovação e numa posição firme frente às condições sociais que enfrentou. Já nos anos 50 a Maria Antônia ocupou papel destacado no panorama cultural brasileiro. Em fins dessa década, um grupo de jovens assistentes da Faculdade de Filosofia realizou uma leitura crítica e sistemática de O Capital, "cansados de conhecer Marx por ouvir dizer e certamente empenhados em demonstrar a respeitabilidade científica da dialética, como exigiam os novos costumes acadêmicos" (Arantes, 1988). Discutindo e repensando Marx e o marxismo, esse seminário marcou a formação intelectual de toda uma geração. Nesse clima intelectual, os estudantes e jovens docentes participaram da Campanha em Defesa da Escola Pública, sob a liderança de Florestan Fernandes. A revolta dos estudantes europeus, especialmente o maio de 68 na França, as agitações estudantis na Universidade da Califórnia, Berkeley, a primavera de Praga, a revolta dos negros nos Estados Unidos marcaram o ano de 1968 no plano internacional. O Brasil também participou desse clima convulso e os acontecimentos de 68 no país apresentaram sua própria especificidade. A Faculdade de Filosofia, à rua Maria Antônia, estava no vórtice da intensa movimentação política e cultural desse período. O clima vertiginoso e extraordinariamente rico de 68 nos remete a acontecimentos anteriores: à intervenção na Universidade de Brasília, o incêndio do prédio da União Nacional dos Estudantes no Rio de Janeiro, o acordo Mec-Usaid, a greve do "terço" no movimento estudantil de 1962, em que se exigia a participação dos estudantes nos órgãos colegiados na proporção de um terço. Em 62 a grande bandeira do movimento estudantil era o "terço", em 68 era a paridade. "No intenso debate que se travou sobre a universidade brasileira, várias experiências surgiram ao longo daquele ano, em São Paulo. Experiências de natureza diferente: de gestão paritária de departamentos e, o que era diferente, comissões paritárias de estudo que apresentaram propostas alternativas de organização da Universidade" (Cardoso, 1988). Apaixonadamente se buscava uma Universidade onde os alunos pudessem participar paritariamente, discutia-se as possibilidades de uma democracia social e cultural, de uma universidade pluralista, o aumento de vagas, verbas e recursos.
Buscava-se uma Universidade aberta, livre, que procurava manter vivo o principal traço renovador do projeto USP: o compromisso crítico, a reflexão e a pluralidade. Enfim: uma "universidade como instituição-chave que terá de enfrentar, por fim, os tremores históricos da revolução democrática" (Fernandes, 1984). Tempo de passeatas pela cidade, assembléias na faculdade, manifestos, reivindicações. Infelizmente, os abusos do autoritarismo atingiram a Universidade, alguns professores da USP e de outras instituições de ensino e pesquisa do país foram punitivamente aposentados e as aspirações progressistas da imensa maioria de estudantes e docentes frustradas, "[.] foi o apogeu e o canto do cisne da Maria Antônia, que caiu junto com os restos da democracia no fim do ano" (Candido, 1988). Mas o autoritarismo não atingiu a Universidade apenas de fora; o Livro Negro da USP documentou os efeitos do conservadorismo cultural dentro da instituição e as vicissitudes enfrentadas pelos "profetas da reforma não encontraram apoio na própria casa" (Fernandes, 1984). Sob resistências, a Faculdade foi transferida para o campus e instalada em barracões pouco adequados. Passados trinta anos, a Faculdade de Filosofia cresceu em tamanho, algumas seções se desdobraram, tornaram-se unidades, ela "povoou o meio ambiente com nomes notórios em todas as áreas do saber e provocou um surto cultural sem paralelos na história intelectual do país" (Fernandes, 1984) e continua sendo o principal centro para o desenvolvimento da pesquisa e formação de recursos humanos na área de humanidades da Universidade de São Paulo. Depois dos trágicos acontecimentos de 2 e 3 de outubro de 1968, quando o edifício foi incendiado, a Faculdade de Filosofia foi instalada no campus da Cidade Universitária. O histórico prédio da rua Maria Antônia passou então a abrigar a sede da Junta Comercial do Estado de São Paulo. Nos anos 80 iniciou-se um intenso movimento de recuperação do edifício para voltar a integrar o patrimônio USP. Após o restauro e recuperação, nele se instalou o Centro Universitário que leva o nome da legendária rua. Pronta foi a adesão da comunidade ao novo pólo de difusão cultural da Universidade de São Paulo no centro da cidade. Notavelmente diverso é o cenário regional e nacional no qual o prédio da Maria Antônia hoje se encontra, mas o espírito de inovação e crítica que caracterizou toda a trajetória da Faculdade de Filosofia em suas diferentes fases, mantém-se vivo. Os debates, o compromisso crítico, a luta pela emancipação, democracia cultural e social que marcaram aquele espaço ali são repostos e repropostos à luz dos novos desafios que marcam o nosso tempo.
A MISSÃO DOS PROFESSORES ESTRANGEIROS.
No processo de implantação da Universidade de São Paulo, um passo importante foi a decisão de contratar no exterior um grupo de professores e pesquisadores de alto nível para implementar estudos de ciências básicas e humanidades na nova Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras. A coordenação dessa missão coube ao professor Teodoro Ramos, um dos fundadores da Universidade, com relevante experiência em intercâmbios científicos internacionais.
Foram contratados, para os diferentes cursos da Faculdade: na França: Robert Garric, Émile Cornaert, Pierre Deffontaines, Paul Arbousse-Bastide, Roger Bastide, Etienne Borne, Pierre Hourcade, Michel Berveiller, Jean Maugüe, Jean Gagé, Alfredo Bonzon, Pierre Monbeig, Fernand Paul Braudel, Claude Lévis-Strauss, François Perroux e Pierre Fromont. Na Itália foram contratados Luigi Galvani, Giacomo Albanese, Francesco Piccolo, Luigi Fantappié, Ettore Onorato, Gleb Wataghin, Ottorino de Fiore di Cropani, Giuseppe Ungaretti, Giuseppe Occhialini e Vittorio de Falco. Na Alemanha: Ernest Breslau, Ernest Marcus, Heinrich Rheinboldt, Felix Rawitscher e Heinrich Hauptman, mais tarde Hans Stammreiche e Viktor Leinz. Em Portugal: Rebelo Gonçalves, Fidelino de Figueiredo e Urbano Canuto Soares. Além disso foram também contratados professores estrangeiros residentes em São Paulo temporariamente: Edgard Otto Gottsch, Paul Vanorden Shaw, George Raeders, Douglas Redshaw e Antonio Piccardo. A Universidade muito deve a esses professores. Vindos de um mundo distante, não foi fácil a adaptação à América Latina, a começar pela língua. Assim, enquanto aprendiam e se exercitavam no português, muitos ministraram seus cursos na língua nativa. Os alunos sofreram sua influência e aprenderam muito da cultura européia. Esse contato memorável foi testemunhado com respeito e afeto: "Hoje não se pode imaginar o que representou para muita gente a chegada da missão estrangeira para a universidade, em 1934. Foi como, para mim, ter ao vivo uma esplêndida amostra do mundo cultural, que até então só se podia buscar nos livros e revistas disponíveis, artigos e notícias dos jornais. Naquele tempo ir à Europa era privilégio de raros e sonho de muitos" (Simão, 1988). A USP herdou dos mestres estrangeiros inestimável contribuição. Esses professores implantaram um padrão acadêmico vital e definidor da qualidade e excelência da produção USP. Na Faculdade de Filosofia as missões de professores estrangeiros provocaram uma ampla revolução cultural" (Fernandes, 1984), transmitindo um critério de disciplina e qualidade intelectual que atravessa toda a produção acadêmica da instituição. Muitos deixaram discípulos, fizeram escola e suas obras se constituíram em material básico para o conhecimento da produção em diversas áreas, da sociologia, antropologia, às letras, artes, geociências e outras. Além do rigor teórico e do convívio estimulante com esses professores, ficaram memórias de uma presença viva e afetuosa e de uma atitude de profundo respeito pelas coisas do Brasil. Mas é importante lembrar que o intercâmbio estabelecido com esses professores se estabeleceu em mão-dupla. O Brasil dos anos 30 vivia um processo de rápidas transformações urbanas, decorrendo daí diversos problemas que logo se constituíram em novos campos para a pesquisa sociológica, análise e reflexão.
(Texto retirado do site www.usp.br)